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domingo, 13 de dezembro de 2009

Nasce o Partido dos Trabalhadores


Em 10 de fevereiro de 1980, o Partido dos Trabalhadores aprova, por aclamação das cerca de duas mil pessoas presentes ao Colégio Sion, em São Paulo, seu manifesto de fundação (foto ao lado - arquivo Fundação Perseu Abramo - FPA). É o primeiro passo para a constituição do partido que viria a ser a grande novidade política da vida brasileira daí por diante.

Reunindo a base do novo sindicalismo surgido nos anos anteriores, tanto urbano, quanto rural, setores da Igreja, segmentos médios, intelectuais e estudantes sob o signo geral do combate ao regime militar e às desigualdades econômicas, no plano interno, e da crítica ao chamado "socialismo real", no plano externo, o partido tem como primeiro desafio articular essa força social "de baixo para cima" como as exigências legais de se constituir formalmente "de cima para baixo", com exige a Nova Lei Orgânica dos Partidos Políticos, que instituíra o pluripartidarismo em 1979.

Mesmo tendo sido cogitada há algum tempo, a idéia de formar um partido nesses moldes ganha força depois das intervenções do governo em vários sindicatos em 1979 e em 1980. Cresce a necessidade de se dispor de instrumentos mais amplos e fortes de expressão e representação dos interesses dos trabalhadores.

O primeiro desafio legal é contornar a vedação que a lei estipula: "Não se poderá utilizar designação ou denominação partidária, nem se fará arregimentação de filiados ou adeptos, com base em credos religiosos ou sentimentos de raça ou classe...". O governo espera, assim, que o STF (Supremo Tribunal Federal) indefira o registro do PT, mas este sai vencedor na sua argumentação de que não inclui somente operários e que as adesões se dão por concordância com o programa partidário e não por extração de classe.

A lei exige também que os partidos devem realizar convenções em pelo menos nove Estados e, no mínimo, em um quinto (20%) dos municípios de cada Estado, só valendo os municípios em que houvesse um número mínimo de filiados, estabelecido em lei. Isso no prazo de um ano. Cumprida essa etapa, obtém-se o registro provisório.

Para a obtenção do registro definitivo é necessário ter 5% dos votos para o Congresso, dos quais no mínimo 3% em cada um dos nove Estados em que houvesse convenção. Para isso seria preciso esperar as eleições de 1982.

Os militantes se põem a trabalhar intensamente e organizam o partido a partir de núcleos de base, que se reúnem em diretórios locais, estes em uma coordenação regional, que forma um comitê estadual. Tudo é discutido e deliberado em convenções regionais e nacionais. Constrói-se assim o partido de baixo para cima. E em outubro de 1980 ele não só atende às exigências legais como supera o PDT e o PTB em número de
diretórios constituídos. (foto ao lado: Dia do Registro do PT no TSE - dezembro de 1908 - arquivo FPA)

Em outubro de 1980 o PT tem 625 diretórios formados no Brasil, distribuídos em 13 Estados. E apresenta uma nova concepção de política partidária, como diz seu presidente, Lula:

"Em termos de efetiva organização, cada setor da sociedade deve ser organizado; a Igreja e as comunidades de base têm um papel específico a desempenhar. Também os sindicatos e as associações de bairro. E o partido político tem o seu próprio papel, o de congregar essas organizações em nível regional e nacional" (Alves, M. H. Moreira, Estado e oposição no Brasil (1964-1984). 5ª edição. Petrópolis: Vozes, 1989; p. 277)

No dia 21 de outubro de 1980, o Diário Oficial da União publica a criação do PT – Partido dos Trabalhadores.

fonte: ABC de Luta

Acima foto (arquivo FPA) -Fundação do PT no Colégio Sion - fevereiro de 1980
Abaixo: Recortes dos jornal Folha de S. Paulo - 11/1/1980 (arquivo ABC de Luta)



Primeira bancada na Assembleia Legislativa de São Paulo


Após cumprir todas as exigências legais, o Partido dos Trabalhadores é registrado no Tribunal Superior Eleitoral, em dezembro de 1980.

Em São Paulo, seis deputados estaduais eleitos pelo MDB (Movimento Democrático Brasileiro) se filiam ao recém-criado PT e passam a compor a primeira bancada de parlamentares petistas na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, para cumprirem mandato até 15 de março de 1983.


São eles:

. Eduardo Matarazzo Suplicy





. Irma Rossetto Passoni





.
Geraldo Augusto Siqueira Filho
. João Baptista Breda
. Luiz Sérgio Claudino dos Santos
. Marcos Aurélio Ribeiro


Contexto nacional

Em 1980, o presidente é João Batista Figueiredo e os brasileiros são assombrados pela alta dos preços. A reação à inflação alavanca o movimento de donas de casa, que promovem boicotes ao consumo da carne e organizam manifestações públicas. Professores, portuários e metalúrgicos fazem greves que, a exemplo de 1979, são reprimidas com violência. (foto acima do de V. Deuttmar)

E é o ano em que é preciso enfrentar nova crise do petróleo. Diferentemente do que ocorrera no primeiro choque, em 1973, agora o Brasil passa a ter sérias dificuldades na obtenção de financiamento externo. O preço do petróleo saltara de US$ 15/barril, no ano anterior, para US$ 35/barril, e os juros internacionais se elevaram. O déficit brasileiro em conta corrente, que atinge US$ 13 bilhões em decorrência da expansão interna, faz crescer a desconfiança dos credores internacionais e as reservas sofrem uma perda de US$ 3 bilhões.

A deterioração econômica mina politicamente o regime, mas ainda assim setores militares descontentes tentam boicotar a abertura. Sucedem-se vários atentados e ameaças. Em julho, uma série de bombas atinge bancas de revista do Rio de Janeiro, Belo Horizonte e São Paulo. O advogado Dalmo Dallari, da Comissão de Justiça e Paz de São Paulo, é seqüestrado e espancado. O escritório do advogado Luís Eduardo Greenhalg, sede do PT e do Comitê Brasileiro pela Anistia, é atingido por tiros, assim como o escritório do advogado e deputado do PMDB Flávio Bierrenbach.

Em agosto, mais bombas em bancas, na Sunab, numa creche da União Israelita de São Paulo e no gabinete de um vereador carioca. Um atentado contra a sede da OAB, no Rio de Janeiro, mata uma funcionária e leva 10 mil pessoas a seu enterro.

O terror acaba produzindo, de fato, alguns recuos no cronograma institucional da abertura, mas outros avanços são obtidos. Em setembro, uma emenda da Arena adia as eleições municipais de 1980 para 1982, prorrogando os mandatos de prefeitos e vereadores. Em novembro, os deputados e senadores aprovam a volta das eleições diretas para governador em 1982 e o fim dos senadores biônicos em 1985.

Em termos de inflação, em junho a Fundação Getúlio Vargas divulga que o índice dos últimos doze meses chegara a 94,7%, quebrando o recorde de 1964. O Conselho Monetário Nacional limita em 50% a correção monetária para o período de junho de 1980 a junho de 1981. A prefixação simplesmente piora os problemas que pretendia atacar: aumento da inflação e expansão do déficit externo. O sistema é oficialmente abandonado em novembro.

Em dezembro, o governo anuncia nova política econômica: limitação do crescimento dos investimentos das estatais; centralização no Tesouro dos gastos orçamentários da administração direta; controle semanal dos gastos pelo Ministério da Fazenda. Mas as medidas de dezembro não têm efeito. O ano termina com a aprovação de uma nova lei salarial no Congresso, por decurso de prazo: trabalhadores que ganham até 3 salários mínimos passam a ter direito a reajustes 10% superiores ao INPC. Acima dessa faixa, os aumentos são iguais a 100%, 80% e 50% do INPC. Esse freio na correção dos salários, mais uma tentativa de deter a inflação, significa perdas ainda mais pesadas para os trabalhadores.

Contexto paulista

Em 1980, o governador “biônico”* é Paulo Maluf, “homem de confiança” dos militares, foi escolhido pelos representantes da ditadura militar para governador o Estado no período de 15 de março de 1979 a 15 de março de 1983. Exerceu o mandato até 15 de maio de 1982, data em que se desincompatibilizou para concorrer a deputado federal nas eleições de 1982.

No ano da fundação, o governo de Paulo Maluf era o pivô do grande escândalo envolvendo a VASP. Em agosto de 1980, a Assembleia Legislativa criou uma Comissão Parlamentar de Investigação (CPI) para apurar denúncias de irregularidades na administração da VASP. Vários problemas foram encontrados, entre eles o desaparecimento de 2,7 milhões de litros de combustível - explicada por Calim Eid, chefe da Casa Civil, em razão da "evaporação natural"; sumiço de peças de reposição; concorrências fraudulentas; falsificação contábil; distribuição de milhares de bilhetes aéreos; e uso político da empresa.

No terreno sindical as greves começam fortes em março de 1980, com a campanha salarial no ABC iniciando a "operação tartaruga". No mês seguinte, 300 mil metalúrgicos estão em greve no Estado de São Paulo. O Tribunal Regional do Trabalho aceita aumenta de 7% como produtividade, mas declara as greves ilegais. O Ministério do Trabalho intervém nos sindicatos do ABC e afasta 42 dirigentes, prendendo Lula e mais outros 14 sindicalistas, junto com os juristas Dalmo Dallari e José Carlos Dias. A Igreja apóia os sindicatos com missa na Catedral da Sé com nota oficial da CNBB. O presidente da União dos Trabalhadores em Educação, líder de uma greve nacional dos professores, é preso também em abril. Os sindicalistas são soltos em maio, depois de protestos no ABC e da greve de fome que realizaram na prisão. Lula é eleito presidente do PT em junho e em agosto é pedido seu enquadramento na Lei de Segurança Nacional.

* termo utilizado para dizer que o governador havia sido eleito indiretamente, sem o voto popular

- com informações do ABC de Luta

Fotos abaixo de Irmo Celso - 1º de Maio de 1980, em São Bernardo do Campo: mais de cem mil pessoas apoiam a greve dos metalúrgicos
Abaixo, também, recorte da Folha de S. Paulo - 2/5/1980