domingo, 13 de dezembro de 2009

Um testemunho sobre momentos importantes da história do PT

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** Eduardo Suplicy

Lembro-me de como fui convidado a participar da fundação do PT. Eu era deputado estadual eleito pelo MDB, em 1978, o quarto mais votado na Assembléia Legislativa, com 78 mil votos. Antes, como professor, escrevia artigos de economia na imprensa, sobretudo na Folha de S.Paulo. Os amigos me procuraram dizendo que era preciso que eu defendesse minhas idéias, muito lidas no parlamento. Desde então eu já interagia com os movimentos sociais, incluindo os metalúrgicos do ABC, professores, lixeiros etc. Em 1979, por decreto, o presidente Ernesto Geisel extinguiu o MDB e a Arena.

Os líderes sindicais e os intelectuais, dentre outros, que estavam formando o PT, convidaram-me para integrá-lo. Avaliei ser necessário fazer uma consulta aos meus eleitores. Não tinha como procurar a todos. Pedi, em pronunciamento na Assembléia, e por entrevistas, que todos me dissesem por carta, ou telefone " naquele tempo não havia correio eletrônico " o que achavam de filiar-me ao PT. Mais de 85% das respostas foram para que eu o fizesse. Assim, juntamente com os deputados estaduais João Batista Breda, Irma Passoni, Geraldo Siqueira, Sérgio Santos e Marco Aurélio Ribeiro, em 10 de fevereiro de 1980, no Colégio Sion, filiei-me ao PT na sua fundação.

Em 1982 os companheiros do PT sugeriram que me candidatasse a deputado federal. Aceitei. Juntamente com José Genoíno, Airton Soares, Bete Mendes, Luiz Dulci, Irma Passoni, Djalma Bom e José Eudes " apenas oito " formamos uma bancada aguerrida que deu muito trabalho ao governo do presidente João Baptista Figueiredo. Eu me dedicava, principalmente, a analisar os aspectos da política econômica, apertando para valer os ministros da área como Antônio Delfim Netto. Em 1982, nossa campanha correu paralela à primeira campanha de Lula para governador de São Paulo.

O PT foi um dos partidos que mais lutou para o restabelecimento das eleições diretas para prefeitos das Capitais. A primeira eleição, depois de mais de 20 anos, foi em 1985. Fui escolhido para ser o candidato a prefeito, tendo Luíza Erundina como vice. Jânio Quadros foi eleito com 37% dos votos; Fernando Henrique teve 34%; tive 19,8%. Como a campanha havia crescido na reta final, em 1986 o PT escolheu-me novamente para candidato, dessa vez para governador. Foi um ano difícil. Orestes Quércia foi eleito, seguido de Antônio Ermírio, Paulo Maluf e eu, com 10% dos votos.

Sem mandato, voltei a ser professor em tempo integral na FGV, fazer pesquisa e escrever um livro sobre distribuição da renda e direitos à cidadania. Em 1988, quando Luíza Erundina tornou-se prefeita, o PT me convidou para ser candidato a vereador. Aceitei com entusiasmo. Carlito Maia me ajudou a montar a campanha desenhando a estrela vermelha do PT com o mote Pintou Limpeza, num jipe branco. Nele circulei pela cidade. Tive 201 mil votos. Em razão da boa votação, o PT me indicou para a presidência da Câmara Municipal. Eleito presidente, pusemos em prática o lema: a transparëncia dos atos da administração em tempo real é a melhor maneira de prevenir irregularidades.

Em 1990, tendo em conta os atos registrados na Câmara Municipal, o PT me indicou para ser candidato ao Senado. Tratava-se de um disputa difícil. Dentre os principais adversários estavam o ex-governador e ex-senador André Franco Montoro; Guilherme Afif Domingues; o jornalista Ferreira Netto, apoiado pelo presidente Fernando Collor; e o deputado João Cunha. Fui eleito com 4,2 milhões de votos, correspondendo a 30% dos votos válidos.

Foi um salto para o PT que, naquelas eleições, elevou o número de deputados federais para 35, de deputados estaduais para 81 e, pela primeira vez, elegeu um senador. Maisuma vez, Carlito Maia, um companheiro irmão, ajudou-me lançando o lema: É do ar do Suplicy que o Senado precisa. Houve momentos pitorescos que poucos conhecem.

Certo dia, a direção nacional resolveu reunir todos os candidatos ao Senado em Belo Horizonte, para trocarmos idéias sobre a campanha. Patrus Ananias, o candidato por Minas Gerais, fez um discurso comovente dizendo que deveríamos conclamar a todos para observarmos as nascentes dos rios e para nos empenharmos, cada vez mais, para que suas águas fossem sempre limpas ao longo de toda sua extensão. Gostei tanto da idéia que voltei para São Paulo e levei minha equipe de TV para o município de Saleisópolis, onde nasce o Tietê. Às cinco horas da manhã, de calção de banho, fui gravar em baixo da cachoeira, logo na nascente, tentando transmitir a mensagem da importância da preservação de nossos rios. Na primeira tentativa o choque com a água fria foi de tal ordem que fiquei duro e a voz sumiu. Mas na segunda tentativa consegui gravar. Achei que ficou bom. Entretanto, quando a equipe responsável pelo programa viu a cena, vetou. Ferreira Netto subia nas pesquisas, já tinha ultrapassado Franco Montoro, e não se poderia arriscar. Fui eleito sem aquela ousada cena, inspirada no hoje ministro Patrus.

Dentre os momentos de grande importância vividos no Senado, um marcante ocorreu no primeiro semestre de 1992. Em 27 de abril, a revista Veja publicou uma entrevista de Pedro Collor de Mello na qual relatava, em detalhes, o tráfico de influências que o ex-tesoureiro da campanha presidencial de Fernando Collor de Mello, Paulo César Farias, exercia no governo. Isso incluía a obtenção de recursos, em conluio com o presidente, relacionados às decisões de governo. Ao ler a reportagem, fiquei tão impressionado que liguei para o deputado federal José Dirceu, propondo que fôssemos procurar o irmão do presidente. Pedro Collor de Mello nos recebeu, por cinco horas, no Hotel Maksoud, em São Paulo, onde estava hospedado.

As evidências e sua convicção eram de tal ordem que não tivemos dúvidas. Fomos para minha casa e escrevemos, juntos, um requerimento solicitando a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para apurar aquelas denúncias. Ao iniciar a semana, fomos ao gabinete da liderança do PMDB, no Senado, onde o líder Humberto Lucena reuniu as demais lideranças. Resolvemos fazer um pequeno ajuste na redação do requerimento evitando citar o nome do presidente. Concordamos que o mais importante era averiguar as atividades do Sr. Paulo César Farias, denunciadas pelo Sr. Pedro Collor de Mello. Rapidamente obtivemos o número de assinaturas suficientes " segundo o regimento, mais de um terço " para a constituição da CPI mista. O requerimento com as assinaturas foi oficializado em 27 de maio de 1992.

Apesar de autor do requerimento, como o PT possuía apenas um senador o Regimento Interno do Senado me impedia e integrar a CPI. Entretanto, o líder Humberto Lucena indicou-me para suplente numa das vagas do PMDB, em reconhecimento a autoria da proposição. O deputado Benito Gama (PFL) foi o presidente e o senador Amir Lando (PMDB), relator. O desvendar dos fatos teve enorme repercussão no País, desencadeando um grande movimento social pelas ruas e praças do Brasil, Pela Ética na Política. No processo de impeachment, o relator foi o senador Antônio Mariz.

Assim como em 1983 e 1984, o PT, um dos primeiros responsáveis pela extraordinária campanha das Diretas Já, também no processo de impeachment foi um dos partidos mais atuantes. Lula foi sempre um dos principais oradores da campanha pelo julgamento do presidente por falta de decoro, o qual culminou com a cassação dos direitos políticos de Collor por oito anos, apesar de sua renúncia.

* Este artigo foi extraído do portal do Senado
** Eduardo Suplicy é senador da República pelo PT-SP

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